A hora de limpar o Tour
A abertura da nonagéssima quarta edição do Tour de France acontecerá neste sábado em Londres e, mais uma vez, as ruas serão invadidas por milhares de torcedores provando que se o amor não perdoa completamente os escândalos de dopagem, ao menos quer dar uma nova chance para a volta mais importante do ciclismo mundial. O prefeito londrino Ken Livingstone promete dar as boas-vindas com um verdadeiro carnaval no Trafalgar Square (por ironia um monumento que marca a vitória Britânica em uma batalha naval contra os Franceses de Napoleão Bonaparte) antec
edendo o prólogo que definirá o dono da cobiçada "maillot jaune" (camiseta amarela) de líder na primeira etapa de estrada no domingo. Esta prova contra o relógio acontecerá em uma distância de 8 kilometros cruzando a Casa do Parlamento, o Palácio de Buckingham e o Hyde Park mas entre os 189 ciclistas não teremos a presença do atual campeão Floyd Landis. Logo após vencer a Volta Ciclística da França em 2006, ficou constatado que o Norte-Americano apresentava quase quatro vezes o nível permitido de testosterona e epistestosterona no texte anti-dopagem, alêm do uso de testoterona sintética durante um
a etapa do Tour. Atendendo a um recurso do atleta, a Agência Anti-dopagem dos Estados Unidos (USADA) está revisando o caso. Porém na opinião do diretor do Tour de France Christian Prudhomme, Landis não é mais considerado o atual campeão e o nome dele só permanece na lista de vencedores pois a desclassificação ainda não foi homologada pela União Ciclistica Internacional. Durante uma década tive a honra de transmitir o Tour de France e compartilhar com tantos amigos e amigas momentos históricos como as sete vitórias consecutivas de Lance Armstrong, o primeiro título para a Dinamarca com Bjarne Riis em 1996
, da Alemanha com Jan Ullrich em 1997 ou a garra do campeão de 1998 Marco Pantani, 'll Pirata como era carinhosamente chamado pela torcida Italiana. Mas entre as glórias desta tradicional volta ciclística, que consagrou imortais como Miguel Indurain, Eddy Merckx, Jacques Anquetil e Bernard Hinault, paira a triste suspeita do uso de drogas, em especial o EPO. A batalha contra a trapaça nos esportes não é nova, ou exclusiva do ciclismo, pois já na primeira edição do Tour em 1903 dois atletas foram desclassificados por usarem éter. Mas pelo bem do Tour de France e do ciclismo chegou a hora de se fazer uma limpeza geral na casa. Vejo com alegria o pulso firme do novo homem forte do Tour Christian Prudhomme, o chefão Jean Marie Leblanc resolveu se aposentar, que obrigou todos os ciclista a assinarem um termo de responsabilidade por eventual falha no texte anti-dopagem. Caso falhe em algum teste de controle, o ciclista terá que pagar uma multa equivalente a um ano de salário e ficará dois anos afastado das competições. A operação Puerto, realizada pelas autoridades Espanholas no combate as drogas no esporte, incriminou 58 ciclistas ligados ao médico Eufemanio Fuentes e também refletiu nesta edição do Tour com a e
xclusão de treze atletas que participariam do evento, incluindo o favorito Ivan Basso (suspenso dois ano por tentativa de dopping) e o ex-campeão Jan Ullrich que decidiu se aposentar ao invés de se submeter à um exame de DNA. Além de adotar uma tecnologia de ponta no controle anti-dopagem, a direção faz um gesto concreto no combate a este mal que vem arranhando a imagem do Tour de France desde o escândalo em 1998. As vésperas do início daquela edição o massagista da equipe Festina foi preso carregando 400 ampolas do estimulante EPO. Como resultado das investigações a Festina foi expulsa (vários integran
tes admitiram o uso da droga com excessão do astro Richard Virenque) e cinco equipes abandoram aquele tumultuado Tour em protesto pelo tratamento dado aos ciclistas pela polícia francesa. Apesar dos esforços da União Internacional de Ciclismo e dos organizadores do Tour de France, os rumores de uso de drogas continuaram crescendo no transcorrer da última década. O maior alvo de suspeitas sem dúvida foi o Norte-Americano Lance Armstrong que se recuperou de um grave combate contra o câncer para conquistar um récorde que parecia impossível: Vencer sete vezes, e de maneira consecutiva, o Tour de France. Lembro das transmissões ao lado de Luciana Quaresma quando afirme
i que não tinha contrato de advogado de Lance Armstrong, mas pelo respeito a figura de um campeão do Tour de France, independente da nacionalidade,não poderia condenar um homem sem a mínima prova. Em 2004 os reporteres Pierre Ballester e David Walsh escreveram um livro intitulado "L.A. Confidencial- os segredos de Lance Armstrong". Na obra a ex-massagista Emma O'Reilly alega que uma vez Armstrong pediu para que ela jogasse fora seringas usadas e que colocasse maquiagem para esconder as marcas. Outro personagem do livro é Steve Swart que afirma ter usado EPO com Armstrong em 1995 quando os dois integravam a extinta equipe Motorola. O jornal The Sunday Times publicou as acusações na Gran Bretânha e acabou sendo processado por Lance Armstrong que ganhou a causa. Ao final o jornal inglês foi obrigado a publicar a seguinte nota " O Sunday Times confirmou junto ao senhor Armstrong que isto (a matéria) nunca teve a intenção de acusá-lo de ser culpado por usar qualquer droga de aumento de performance e sinceramente pedimos de
sculpas por esta impressão". Em 2005 o jornal frances "L'Equipe" publicou a manchete "Armstrong Mente" afirmando ter uma cópia do teste de Urina feito com Lance Armstrong em 1999 no qual estava comprovada a presença do EPO. Lance Armstrong novamente se defendeu e a União Ciclistica Internacional confirmou que os exames de urina só começaram a serem coletados dois anos depois no Tour de France de 2001. Em 2006 o jornal francês Le Monde contra-atacou trazendo os depoimentos do ex-companheiro de equipe Frankie Andreu, e a esposa Betsy, no qual Lance Armstrong teria admitido em 1996 ter usado drogas para o aumento de performance logo após se submeter a uma cirurgia no cérebro. A acusação de Andreu não é confirmada pelo médico de Lance Armstrong Craig Nichols mas segundo Greg Lemond, inimigo declarado de Armstrong, existe uma gravação da assistente Stephanie Mcllvain na qual ela declara "Eu estava naquele quarto, eu ouvi".O caso permanece tramitando na justiça mas, independente do veredito, a maior vítima é o
ciclismo que corre o sério risco de perder sua credibilidade. Pelo bem de um esporte magnífico, pela honra de tantos ciclistas que escreveram a história do Tour de France e pelo patromônio de futuras gerações chegou a hora de limpar a casa. Doa a quem doer. Espero que ao chegarem em Paris no dia 29 de julho, após percorrer 3 mil e 550 kilometros de planicies e montanhas, os ciclistas possam dizer com orgulho: "Vive Le Tour" mas de alma limpa.
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