Friday, August 10, 2007

A história irá julgá-lo.

(Barry Bonds rebate home run 756. Foto Danny Moloshok/Reuters)
Finalmente aconteceu. Em uma noite de verão em San Francisco Barry Bonds quebrou o recorde mais importante no beisebol mas, ao meu ver, ainda não tem o direito de colocar a coroa de novo rei dos home runs. Ao rebater o arremesso de Mike Basick do Washington Nationals, que por ironia já foi punido no passado por falhar no teste anti-doping, o polêmico Bonds chegou aos 756 home runs (atualmente tem 757) superando a marca de Hank Aaron. Porêm o que deveria ser uma noite de celebração do beisebol e reconhecimento à carreira de Barry Bonds só aprofundou a divisão entre aqueles que o amam e os que acusam o astro do San Francisco Giants de ser um trapaceiro. Os integrantes do Fan clube de Barry Bonds, em sua maioria vivendo na Califórnia, trazem os argumentos da defesa na ponta da língua: Ele nunca falhou em um teste anti-doping, caso tenha usado esteróides é por que todo mundo usava no final dos anos 90, esteróides não transformam ninguém em grande jogador, Bonds é um craque com ou sem química e quem critica Barry Bonds é racista. No clube "joga pedra nele"a metralhadora também funciona: Como explicar que Bonds aos 27 anos marcou 25 home runs e aos 37 anos, quando a produção de qualquer jogador estaria declinando, carimbou 32 home runs? Como explicar que Bonds aos 28 anos marcou 34 HR e aos 38 anos detonou 46 HR? Como explicar que Barry Bonds tinha uma média de 31 home runs por campeonato até completar 35 anos em 1999, a temporada que, segundo denúncias, ele começou usar esteróides, e de lá para cá pulou para uma média de 44 home runs por campeonato (números que poderia ser ainda maiores se Bonds não tivesse jogado apenas quatorze partidas em 2005)? Como justificar o não envolvimento de Barry Bonds com o próprio preparador físico Greg Anderson, ligado ao laboratório Balco, que está cumprindo pena por fornecer esteróides à atletas profissionais?Coincidência ou a pura realidade dos esportes, uma semana após o término do Tour de France cá estou escrevendo novamente sobre o possível envolvimento de um atleta com as drogas. As suspeitas sobre Barry Bonds nasceram das acusações de Jose Canseco sobre o uso irrestrito de esteróides entre os principais astros da Major League e levaram o congresso norte-americano a abrir uma comissão de inquérito. Em princípio Canseco foi ridicularizado, acusado de oportunista mas com o passar do tempo Jason Giambi admitiu o uso de drogas, Rafael Palmeiro foi pego mentindo, Mark Mcgwire preferiu dizer em depoimento que "não estava lá para falar do passado" e muitos sofreram um mal subito de amnésia. No caso de Barry Bonds a reação tem maior intensidade pela quebra do recorde de home runs e os fatos detalhados no livro Game of Shadows (Jogo de sombras) sobre o envolvimento do jogador com o uso de uma variedade de drogas. O livro é o resultado de dois anos de pequisa dos reporteres investigadores Mark Fainaru-Wada e Lance Williams sobre os caminhos de sombras seguidos por um talento indiscutível do beisebol. De acordo com os autores a decisão de Barry Bonds de usar os esteróides aconteceu em 1998, especificamente na visita do San Francisco Giants ao Saint Louis Cardinals. Bonds teria ficado impressionado com a aclamação recebida por Mark Mcgwire, que diputava com Sammy Sosa para quebrar o recorde de home runs em uma temporada, ao ir para o home plate. Segundo a namorada de Bonds na epoca Kimberly Bell, ele teria chegado no hotel irritado e dito "que eles só estavam deixando aquilo (home runs de Mcgwire) acontecer por que ele era branco". A partir daquele dia Bonds teria contactado Greg Anderson para obter stanozolol, a mesma droga usada pelo corredor Ben Johnson que acabou expulso dos Jogos Olímpicos de Seul. No campeonato de 2001, aos 36 anos de idade, Barry Bonds rebateu 73 home runs quebrando o recorde de home runs em uma temporada que pertencia a Mark Macgwire (De acordo com a Associated Press Macgwire admitiu em uma entrevista que estava usando o esteróide androstenedione durante a quebra do recorde em 1998). No livro Game of Shadows Barry Bonds só alcançou os 73 home runs se submetendo a um coquetel de drogas fornecidas por Anderson que incluia dois esteróides desenvolvidos pela Balco, hormônio de crescimento (droga usada no tratamento de pacientes de cancer), insulina (para o aumento do efeito dos hormônios de crescimento), testosterona decanoate, clomid (droga usada para mascarar o uso de esteróides), Deca-durabolin (esteróide usados ilegalmente no alterofilismo) e Norboletethone (esteróide desenvolvido para o aumento da produção de carne em vacas mas proibido por falta de segurança). Convocado a depor em 2006 Gary Anderson se recusou a dar qualquer informação sobre o envolvimento de Barry Bonds com os esteróides e acabou sentenciado por negar-se a colaborar com a investigação. Tudo isso coloca um sabor amargo na champanhe deste novo recorde e lembra fantasmas do passado. Desde o escândalo na World Series de 1919, quando os Black Soxs se venderem na final, a honestidade é ponto de honra para todos os torcedores da Major League Baseball. O sagrado recorde de home runs, que teve seu primeiro dono no legendário Babe Ruth (714), representa o ápice do que um jogador pode alcançar e não há como deixarmos de fazermos uma comparação entre o impacto da quebra da marca alcançada por Barry Bonds esta semana e a conquista de Hank Aaron 33 anos atrás. O triunfo de Hank Aaron em 1974 representou um dos capítulos de maior coragem e dignidade na história deste esporte. Nos 21 anos de carreira defendendo o Milwaukee Brewers e Atlanta Braves Aaron não passou por maior prova do que igualar a marca de Babe Ruth ocorrida em 1973. Ele começou a receber ameaças de morte de pessoas que não queriam ver um homem da raça negra superando o saudoso Bambino. O risco de um assassinato chegou a tal ponto que o FBI precisou dispachar agentes para protegerem a família de Aaron e o próprio jogador. Em todos os estádios, a cada vez que ia para o home plate ele ouvia os gritos de ofensas mas também palavras de incentivo de um povo americano ainda dividido pelas cicatrizes da guerra do Vietnam. Em contraste com Bonds, Hank Aaron sempre foi um sujeito de fala mansa e o único desabafo dele aconteceu no final do campeonato de 1973 (empatado com Babe Ruth) ao dizer que "temia não estar vivo para ver a temporada de 1974". O público respondeu imediatamente inundando a sede do Atlanta Braves com cartas pedindo para que ele superasse o recorde. O volume chegou a tal ponto que Aaron não conseguia responder as mensagens e uma secretária foi contratada para datilografar as cartas. Os principais jornais americanos sairam em defesa daquele homem de bem e mesmo a viúva de Babe Ruth, Claire Hodgson, denunciou os ataques racistas e declarou que se o marido estivesse vivo ele estaria torcendo para Hank Aaron quebrar o recorde.E finalmente aconteceu. No dia 8 de abril de 1974, em casa diante dos torcedores do Atlanta Braves, Hank Aaron rebateu forte o arremesso de Al Downing do Los Angeles Dodgers... era o 715. Novo recorde de home runs!!! Dois rapazes brancos invadiram o gramado e correram em direção à Aaron, que já contornava a primeira base, pânico entre os policiais, mas em sua grandeza o astro abraçou os dois estudantes e correram juntos até o home plate. O beisebol tinha um novo rei e, diferente do que aconteceu esta semana, a esmagadora maioria do país acordou com um sorriso no dia seguinte. No dia primeiro de agosto de 1982 Hank Aaron entrou para o Hall da Fama com a aprovação de 98.2% do colégio eleitoral, segunda maior votação somente atrás de Ty Cobb. As suspeitas que o recorde seria quebrado de maneira impura não afetaram a dignidade que sempre acompanhou Hank Aaron e ele demonstrou isso na hora de maior alegria de Barry Bonds. No momento que os fogo de artifício que pipocavam sobre o estádio AT & T Park comemorando o home run número 756 de Bonds, apareceu no telão uma mensagem de Hank Aaron:" Gostaria de oferecer as minhas congratulações à Barry Bonds por se tornar o líder em home runs na carreira. É uma grande realização que exige habilidade, durabilidade e determinação. Durante um século o recorde tem tido um lugar especial no beisebol e tive o privilégio de segurar este recorde por 33 anos. Eu sairei da frente agora, meus melhores desejos à Barry e sua família nesta façanha histórica. Minha esperança hoje, assim como naquela noite de abril em 1974, é que o alcance deste recorde inspire outros a buscarem os próprios sonhos". O gesto cavalheresco de Aaron claramente comoveu Barry Bonds que agora terá a responsabilidade de carregar o legado de um grande homem. "Aquilo significou tudo" desabafou Bonds "Aquilo significou absolutamente tudo. Nós todos sempre admiramos Hank Aaron. Nós todos temos respeito por ele, cada um no jogo (beisebol). Neste momento tudo me atingiu tão rápido que eu perdi as palavras. Aquilo foi absolutamente o melhor". Aquela imagem de Hank Aaron comemorando com os rapazes trinta e três anos atrás é um simbolo do que há de bom nos esportes. Assim como o futebol para nós brasileiros, o baseball leva cada americano de volta às memorias de infância, dos jogos de bola com os amigos, o primeiro arremesso na luva do papai, a surpresa e os gritos da mamãe na primeira rebatida. Ser o rei dos home runs trás uma aura de super herói aos olhos de meninos e meninas. É como se o jogador pudesse colocar uma capa vermelha e deixar o estádio voando. É por isso que até ser condenado ou inocentado das acusações de uso de esteróides não posso dar a coroa de reis dos home runs à Barry Bonds. Descobrir que o rei do beisebol chegou ao recorde de home runs adotando meios ilegais seria devastador para milhões de fans ao redor do mundo e colocaria em risco a validade de ser honesto para cada jogador em início de carreira. Em uma rápida referência à polêmica, Barry Bonds disse que "este recorde não está manchado". Da mesma maneira que disse em relação à Lance Armstrong no Tour só irei condenar Barry Bonds quando existirem as provas. Mas se o grande rebatedor é inocente, tem uma oportunidade de ouro para se tornar um imortal. Permita que os depoimentos prestados por ele diante do congresso, bloqueados pelo advogado, sejam colocados à público, aconselhe o amigo Anderson à cooperar nas investigações e, se forem encontradas provas do uso de esteróides, tenha a decência de pedir perdão aos torcedores que o aplaudiram durante 22 anos de carreira.

3 Comments:

At Saturday, August 11, 2007 7:18:00 PM, Blogger Unknown said...

Como sempre, excelente texto! Quanto ao recorde de Barry Bonds, concordo com você. É desalentador descobrir que um jogador conseguiu a superação trapaceando. Se é inocente como ele declara, que incentive e facilite as investigações. Caso contrário, tenha humildade, peça desculpas, e não aceite o título. O beisebol e os amantes do esporte agradecem.
Abraços

 
At Sunday, August 12, 2007 1:02:00 PM, Blogger Rafael Placce said...

ninguem cresce do jeito que ele cresceu só comendo bigmac gente, é claro que ele usou drogas, até a cabeça dele cresceu

 
At Thursday, August 16, 2007 2:41:00 PM, Anonymous Anonymous said...

Grande Marco,

Realmente é difícil aceitar Barry Bonds como recordista diante de tantas evidências, mas realmente é preciso concordar de que enquanto não tivermos um veredicto final, como fãs de basebal, devemos reconhecer o feito.

Hank Aaaron não está mais no topo da lista, mas continua sendo o maior exemplo de superação no esporte!

Parabéns pelo texto Marco!
Abraço!

 

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